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Tragédia em Mariana PARA QUE NÃO SE REPITA

Entenda como técnicas mais modernas de tratamento de resíduos da mineração poderiam ter impedido que o distrito de Bento Rodrigues fosse varrido do mapa
Por Eduardo Gonçalves, Nicole Fusco e Talyta Vespa 
Foto: Antonio Cruz /Agência Brasil

Com 317 anos, o distrito de Bento Rodrigues, na cidade mineira de Mariana, era um dos mais importantes da região. O vilarejo de 600 habitantes fez parte da rota da Estrada Real no século XVII e abrigava igrejas e monumentos de enorme importância histórica. Em 5 de novembro, um tsunami de lama a varreu do mapa o distrito em onze minutos. Dez mortes foram confirmadas até a tarde de sexta-feira e dezoito pessoas seguiam desaparecidas. A onda devastou outros sete distritos de Mariana e contaminou os rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce. Moradores de cidades em Minas e no Espírito Santo tiveram a rotina afetada por interrupções no abastecimento de água. O destino final da lama deve ser o mar do Espírito Santo, onde o Rio Doce tem sua foz. O que causou a tragédia foi o rompimento de duas barragens no complexo de Alegria, da mineradora Samarco. As barragens continham rejeito, o resíduo não tóxico resultante da mineração de ferro. Tamanha destruição poderia ter sido evitada com o uso de novas técnicas para o tratamento de resíduos de mineração.

Eram três as barragens de rejeito em Alegria: a de Germano, a de Fundão e a de Santarém. Todas operavam segundo o sistema de aterro hidráulico, tradicional e empregado em todo o mundo. Ele conta com a ação da gravidade para fazer com que os resíduos separados do ferro escoem até bacias. A parte frontal dessas bacias é feita de areia, para filtrar a água. A principal hipótese levantada pelos técnicos é que nas barragens de Mariana tenha ocorrido o processo de liquefação, que se dá quando essa camada arenosa externa, em vez de expelir, retém a água. Uma variação brusca na pressão interna do depósito de rejeito pode então transformar areia em lama, que não consegue mais conter os resíduos que estão atrás. Isso explicaria o rompimento da barragem de Fundão — o que arrasou a de Santarém e tudo o mais que havia pela frente. Dois abalos sísmicos de pequena magnitude registrados na região pouco antes da tragédia podem ter acarretado a mudança de pressão na barragem — hipótese que também precisa de comprovação.

O Ministério Público de Minas Gerais e a Polícia Civil abriram inquéritos para apurar as causas do desastre, mas uma resposta satisfatória não deve vir antes de seis meses. Um laudo técnico elaborado pelo Instituto Prístimo, de Minas Gerais, a pedido do Ministério Público alertava em 2013 para os riscos na barragem do Fundão, justamente a primeira a se romper em Mariana. O estudo destacava a proximidade entre a barragem e o local de descarte de rochas sem minério da Mina de Fábrica Nova da Vale. “Esta situação é inadequada para o contexto de ambas as estruturas, devido à potencialização de processos erosivos", diz o documento.


É evidente que houve negligência, ou no monitoramento ou na operação do empreendimento”Carlos Eduardo Ferreira Pinto 

O texto não aponta irregularidades, motivo pelo qual a renovação da licença ambiental da barragem foi concedida à mineradora naquele ano. Faz, contudo, recomendações que elevariam o padrão de segurança da barragem. De acordo com o MP, a Samarco seguiu o indicado – o que não a isentará de ser responsabilizada pelo ocorrido. "É evidente que houve negligência, ou no monitoramento ou na operação do empreendimento", afirma o promotor do Meio Ambiente de Minas Gerais Carlos Eduardo Ferreira Pinto. "Um rompimento dessa magnitude não acontece do dia pra noite. Houve falha no monitoramento", completa. A Samarco afirma que todas as suas licenças estavam em dia.

A legislação ambiental brasileira estabelece que empresas que exercem atividades com riscos conhecidos, como a mineração, assumem automaticamente o ônus por eventuais acidentes. Por isso, o monitoramento das barragens é um dos pontos críticos do empreendimento. Os rejeitos se acumulam, e os engenheiros vão ampliando as estruturas”, diz o professor de geologia de engenharia da USP Edilson Pissato. Há depósitos com 200 metros de altura. O de Fundão tinha 90 metros.
Barragem da mineradora Samarco se rompeu no distrito de Bento Rodrigues, no interior de Minas Gerais (Foto: Reprodução/TV Globo)PreviousNext

Além das multas em decorrência dos danos ao meio-ambiente, a Samarco deverá arcar com os custos da reconstrução da região atingida e com a indenização às pessoas afetadas. Só em Bento Rodrigues, a prefeitura de Mariana estima que a onda de lama tenha devastado o equivalente a 100 milhões de reais em ruas, prédios e pontes. A licença da mineradora na cidade foi embargada pelo governo estadual. Na sexta-feira, a Justiça de Minas Gerais bloqueou 300 milhões de reais da conta da mineradora para garantir o pagamento das indenizações.

Há técnicas mais modernas para lidar com o rejeito, que usam filtros para garantir sua drenagem. Seus custos podem encarecer a exploração de uma jazida em até seis vezes. “Por isso, as mineradoras acabam assumindo o risco de usar os processos tradicionais”, diz Pissato. A ONG francesa International Commission on Large Dams (Icold) calcula que ocorrem em média dois rompimentos como o de Mariana por ano no mundo. A tragédia em Minas já é classificada como o “11 de setembro” do setor de mineração. Executivos do segmento esperam um endurecimento das regras para as mineradoras. “Depois de Mariana, ninguém mais vai conseguir licença para construir barragem sem filtro. A sociedade não vai aceitar mais correr esses riscos”, conclui o engenheiro e geotécnico Joaquim Pimenta de Távora. O novo Código de Mineração em tramitação na Câmara dos Deputados deve agora incluir emendas que obriguem as mineradoras a tratar os rejeitos – uma forma de evitar novas tragédias em um país em que há pelo menos outras 800 barragens como a de Mariana.


Reportagem especial
OS HERÓIS DE MARIANA
Conheça os personagens que percorreram o distrito histórico de Bento Rodrigues para salvar os vizinhos em meio ao tsunami de lama provocado por rompimento de barragens de rejeitos da mineradora Samarco
Por Gabriela Garcia, de Mariana, Nicole Fusco e Eduardo Gonçalves 
Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Passava das 16 horas quando um barulho ensurdecedor interrompeu, em 5 de novembro, a tranquila rotina do distrito de Bento Rodrigues, na cidade mineira de Mariana. Seguiram-se, então, uma nuvem de poeira e o revoar dos pássaros. Os moradores do vilarejo perceberam ali que havia algo errado. Em questão de minutos, gritos e buzinas tomaram as ruas: a onda de lama se aproximava. Só havia tempo para correr. Documentos, dinheiro, roupas, histórias – tudo ficou para trás. Bento Rodrigues foi riscado do mapa. Nem todos tiveram tempo de fugir. Dex pessoas morreram e pelo menos dezoito seguiam desaparecidas até sexta-feira. O desastre foi provocado pelo rompimento de duas barragens de rejeitos – resíduos resultantes da exploração do minério de ferro – da mineradora Samarco localizadas a cinco quilômetros do distrito. Sem que os telefones funcionassem, a solidariedade dos moradores do distrito evitou que a tragédia ceifasse ainda mais vidas.

A auxiliar de serviços gerais Paula Geralda Alves, de 36 anos, percorreu a cidade em sua moto de 50 cilindradas batendo de porta em porta para avisar os vizinhos. "Saí correndo igual a uma louca, gritando 'a barragem rompeu, a barragem rompeu'", conta. "Só quando eu cheguei lá em cima do morro olhei para baixo. Foi então que eu vi que tinha acabado tudo. Em momento algum eu olhei pra trás. Se eu olhasse, eu desistiria."

Sandra Domertides Quintão, de 44 anos, dona de uma pousada centenária adquirida pelo pai, percebeu o desastre ao sair para a janela para ver o ônibus das 16 horas que passa diariamente na cidade rumo ao município vizinho de Santa Rita Durão. Corri para avisar a minha irmã e ela não acreditou porque a chuva de poeira é muito comum ali. Mas eu não duvidei, eu nunca duvidei. Eu sempre soube que isso iria acontecer”, relata. Ao lado da irmã Terezinha, ela despachou seu carro com quatro pessoas – entre elas sua filha Ana Amélia, de dois anos – e começou a buscar outros moradores. Elas subiram no carro de um amigo, depois de carregarem uma idosa que estava com o fêmur quebrado e não conseguia andar. Tentaram ainda chegar à casa de Thiago Damasceno, uma das crianças mortas na tragédia, mas o tsunami de lama de mais de 10 metros de altura chegou antes. Bento Rodrigues desapareceu do mapa em menos de 10 minutos.
A cidade de Barra Longa está tomada pela lama após o rompimento de duas barragem de rejeito o (Foto: Felipe Dana/AP)PreviousNext

O irmão de Sandra, Antônio, subiu em sua caminhonete com a mulher e recolheu quinze vizinhos. “Uma idosa foi levada em um carrinho de obra e voltou para buscar dinheiro. Eu a carreguei à força. Deixei mais de 50.000 reais embaixo do meu colchão. Mas nada disso importa agora”, conta. Antônio colecionava mais de 200 espécies distintas de aves em casa, entre calopsitas, canários belgas, mandarim, calafate e pintagol. Agora, em sua casa restam apenas dois pés de manga e um de condessa. Já Arnaldo Mariano Arcanjo, 31, foi listado como desaparecido na sexta-feira porque voltou diversas vezes ao povoado para buscar pessoas que ficaram presas na lama, como Priscila Monteiro Isabel, grávida, e seu filho de 2 anos. Passou a madrugada buscando salgadinhos e biscoitos em um bar inundado para compartilhar com as famílias que ficaram ilhadas.


A coisa mais valiosa era uma foto da minha mãe. Ela morreu da doença de chagas, quando eu tinha 9 meses. E aquela foto era a única lembrança que eu tinha dela”Keila Vardele Sialho

Keila Vardele Sialho, de 31 anos, conta que preparava o jantar quando seu tio apareceu na porta gritando: “Corre que a barragem estourou”. O que se seguiu foi uma típica cena de filme-catástrofe. “Correria, gritos, choro em todos os cantos. Todo mundo correndo, idoso, criança... Olhava para trás e via aquele mundo de lama vindo de todos os lados, como se estivesse abraçando a gente. O barulho era ensurdecedor”. Ela saiu em disparada atrás dos dois filhos e da avó, de 85 anos, que mal conseguia andar. Encontrou no caminho o sogro, que circulava pelas ruas recolhendo as pessoas em sua caminhonete. Ele resgatou seus familiares e quem mais viu pela frente. “Fui puxando um monte de gente para cima do carro. Nossa preocupação era salvar todo mundo”. Junto com um ônibus metropolitano e um caminhão de mudanças, a caminhonete seguiu para o ponto mais alto do vilarejo. Atrás dos sobreviventes, um cenário desolador: uma avalanche de lama cobriu o vilarejo, arrastando árvores, rochas, postes, carros, caminhões, casas, animais e tudo o que havia pela frente.

Keila e mais sete mulheres do vilarejo trabalhavam com um produto típico da região, a geleia de pimenta biquinho. Elas atuavam em todas as etapas de produção, da plantação à comercialização do produto final. O empreendimento fazia parte dos projetos sociais da Samarco, responsável pelas barragens que se romperam. “O que a gente plantou foi tudo embora. Só sobrou o prédio da associação, que ficava na parte alta”. Como boa parte dos vizinhos, ela saiu de casa só com a roupa do corpo. Perdeu todos os pertences e documentos. “A coisa mais valiosa era uma foto da minha mãe. Ela morreu da doença de chagas, quando eu tinha 9 meses. E aquele foto era a única lembrança que eu tinha dela”.

Marcilene da Conceição Pereira, de 28 anos, conta que assistia a uma novela com os pais quando eles ouviram o barulho. Achavam que alguém estava pondo fogo na mata. Saíram para conferir e avistaram a onda de lama. Só houve tempo para que a família corresse. Vítima de lúpus há sete anos, Marcilene faz uso de muletas. Sequer conseguiu levá-las.
Missa na Praça da Sé em Mariana (MG) (Foto: Gabriela Garcia/VEJA)PreviousNext

Pouco mais de uma semana depois da tragédia, ainda não se sabe o que provocou o rompimento das barragens. Uma resposta satisfatória não deve ser obtida antes dos próximos seis meses. As 185 famílias estão hospedadas em diversos hotéis de Mariana e tentam recomeçar. Os alunos do ensino fundamental devem voltar às aulas a partir de segunda-feira, na Escola Dom Luciano, em Mariana. As mesmas 50 professoras de Bento Rodrigues lecionarão no novo local. Já os jovens que cursam o Ensino Médio em distritos vizinhos aguardam a definição sobre como será feito o transporte até as escolas.

“O objetivo é manter essa comunidade unida”, afirma o promotor de Justiça da comarca de Mariana, Guilherme Meneghin. “Depois de tudo que vivemos, nós queremos ser uma vila de novo.”, resume Cleonice dos Santos. Mas não em Bento Rodrigues. Ainda que haja possibilidade de reconstrução do vilarejo, os moradores não querem voltar. O clima de medo impera, sobretudo porque ainda há uma barragem sobre a região que abrigava o povoado.
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Tragédia em Mariana PARA QUE NÃO SE REPITA Reviewed by OPIPOCO MONTEIRO on domingo, novembro 15, 2015 Rating: 5

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